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Editor de redes sociais da CartaCapital, Júlio Simões, fará palestra no UniToledo; confira a entrevista

Mariana Páscua

Em comemoração ao Dia do Jornalista (celebrado em 7 de abril), o editor de redes sociais da revista CartaCapital, Júlio Simões estará presente no UniToledo nesta sexta-feira (5), para um bate-papo com os alunos do curso de Jornalismo no qual abordará as tendências, desafios e oportunidades da área nos tempos atuais. A palestra será realizada no auditório da instituição, às 19h.

Formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, ele é pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. Em sua trajetória, Simões realizou a cobertura jornalística de esportes em portais como Gazeta Esportiva, Terra e ESPN, na função de redator. Além disso, atuou na Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), e coordenou, como freelancer, a equipe redes sociais de Marta Suplicy.

Para Simões, a palestra é uma rara oportunidade de conhecer a realidade dos que estão iniciando na carreira. “É preciso coragem e resiliência para se dedicar a uma profissão tão importante quanto ameaçada. Não são tempos fáceis para o Jornalismo, mas acho que as possibilidades e oportunidades compensam”. Confira a entrevista que o palestrante deu ao UniToledo:

Como é seu dia a dia como editor de redes sociais da CartaCapital?
Na Carta, divido o meu dia entre a execução de rotinas diárias e reuniões para planejamento estratégico da área. Entre as rotinas estão a produção e o acompanhamento do que precisa ser publicado naquele dia nas redes, em grande parte o conteúdo que a equipe de jornalistas do site produz para a internet. A Carta está presente no Facebook, Twitter, Instagram, Youtube, Linkedin e, mais recentemente, WhatsApp. São muitas redes, várias delas com bastante engajamento, o que aumenta a responsabilidade.

Como é o contato com o público, levando em conta o teor político do conteúdo da CartaCapital, principalmente em um período tão polarizador da sociedade brasileira?
De fato, o volume de comentários que recebemos diariamente é altíssimo, e grande parte dele pode ser classificado dentro dessa polarização que virou o país. Por regra, não moderamos comentários, até por uma questão de liberdade de expressão, mas ficamos atentos para frear aqueles que ferem o respeito e os princípios dos direitos humanos.

No dia 7 celebramos o Dia do Jornalista, como você avalia a realidade atual da profissão?
Em poucas palavras, vejo a realidade do jornalista de duas formas. Se por um lado enfrentamos uma grave crise de modelo de negócios e de ataque à credibilidade da atuação jornalística e sua função social, por outro lado o mundo vem mudando rapidamente e novas ferramentas e mercados vêm se abrindo aos profissionais de jornalismo. Por isso, acho que o jornalista que está começando sua carreira agora precisa estar disposto a aprender, a fazer acontecer e a ser resiliente, já que a realidade do trabalho é bastante dura.

Vivemos um período em que não é raro denúncias jornalísticas contra o governo serem classificadas como “fakenews” por políticos e seus seguidores. Como você lida com isso, como jornalista?
De fato, o que acontece hoje no país (e em alguns lugares do mundo, como os Estados Unidos) é uma tentativa de desvalorizar e descredenciar o trabalho do Jornalismo profissional, aquele feito por jornalistas com formação, ligados à uma empresa formal e que, portanto, pode ser responsabilizado pelo que publica. É cada vez mais comum ver pessoas acreditando cegamente em conteúdo publicado por sites suspeitos, assinados por perfis muitas vezes falsos, ou em correntes que circulam anonimamente pelo WhatsApp, quase sempre com o mesmo objetivo de atacar a reputação de alguém. Essa onda de “fakenews”, que também poderia ser chamada apenas de “mentira”, talvez seja o maior desafio para o jornalista nos dias de hoje. Como um profissional dessa área, procuro estar sempre atento e com o radar ligado para perceber possíveis fraudes ou inconsistências no assunto, evitando a publicação de uma mensagem errada ao público. Neste sentido, é cada vez mais importante reforçar as técnicas de apuração e checagem, além de buscar transmitir o conteúdo de forma clara e transparente. Em outras palavras, os jornalistas precisam fazer o que sempre tiveram que fazer – apurar, checar e transmitir com clareza a informação à sociedade -, só que com mais atenção e cuidado do que antes.

O que você diria em relação a esse cenário para os futuros jornalistas que assistirão à palestra sobre o papel e os desafios do jornalista?
Aos futuros jornalistas, eu diria que são tempos difíceis que pedem coragem, resiliência e atenção. E também muito preparo e conhecimento, tanto das técnicas da profissão quanto de formação cultural individual, já que a concorrência do mercado é cada vez maior. Acho que isso vale não só para o combate às fakenews, mas para todo o trabalho jornalístico nestes tempos tão difusos. Porém, como eu costumo ser otimista quanto ao futuro, também acredito que este momento é único para quem deseja trabalhar com comunicação, produção de conteúdo e até mesmo com o jornalismo mais tradicional, aquele de fiscalização e interesse público. A tecnologia derrubou certos monopólios e hoje é possível gerar conteúdo com menor custo e chegar ao público de forma direta, pela internet. Só para dar um exemplo: antes você dependia de toda a estrutura de uma emissora de televisão (que só existiam em grandes capitais, vale lembrar) para criar um programa em vídeo; hoje você só precisa de câmera, microfone, tripé e software de edição (que estão cada vez mais baratos), um bom espaço para gravar e o YouTube – fora o conteúdo de qualidade, claro, que nunca deixará de ser o grande motor do sucesso.

Como os estudantes de Jornalismo podem se preparar para atuar em uma era de tantas transformações na comunicação por meio da tecnologia?
Sem dúvida, essas transformações impostas pela tecnologia exigem do profissional uma busca constante por conhecimento. É preciso estar sempre se atualizando das ferramentas, das plataformas e das novidades. O jornalista que acaba trabalhando na internet (futuramente todos nós, eu imagino) precisa saber pelo menos um pouquinho de cada uma das partes do processo, não ficar restrito apenas à apuração dos fatos. É preciso ter noções de edição de imagem (de vídeo também, se possível), SEO, boas práticas de publicação e funcionamento dos algoritmos das redes sociais, enfim, todo o processo que vai desde a pauta até a entrega do conteúdo pronto ao público-alvo.

O que atraiu você para projetos de jornalismo digital?
Olha, eu sempre gostei e tive facilidade com comunicação. Desde pequeno, quando ainda criança usava as folhas pautadas do meu pai, que era professor de Fisioterapia na época, para desenhar um “jornal da casa”, com algumas notícias sobre a família. Quando chegou àquela hora terrível de decidir o curso do vestibular, não vi outra opção e abracei o Jornalismo. Passei no vestibular e me mudei de Promissão para São Paulo, onde fiz Cásper Líbero.  Além disso, sempre gostei de revistas e por algum tempo desejei trabalhar com elas, mas como fui tendo boas experiências em internet desde o meu primeiro estágio na Gazeta Esportiva, resolvi que era o caso de focar minha carreira para o conteúdo digital. Nos últimos anos, me distanciei bastante do jornalismo tradicional, tanto que não faço mais apuração de notícias, e passei a estudar e me dedicar às redes sociais, que é outra coisa que eu também gosto bastante.

Poderia falar um pouco sobre o seu trabalho com a assessoria de documentação de viagem Celestino e o site e canal Última Divisão?
Por mais que não seja a minha função principal atualmente, estes dois trabalhos muito me orgulham. Na Celestino, eu coordeno a produção de posts para o blog deles, além de escrever alguns textos também. O blog é parte de uma estratégia de marketing digital (o famoso inbound marketing) que a empresa está implantando há pouco mais de um ano para se diferenciar no concorrido mercado de emissão de vistos. Para eles, também ajudo na gestão de redes sociais, mas em menor intensidade. Quanto ao “Última Divisão”, é um projeto independente que existe desde 2008 como site e desde 2017 também como canal no Youtube. Foi a partir do canal, aliás, que a marca deu uma guinada e a gente tem conseguido bons números por lá já há algum tempo. O Última Divisão foi criado por mim e por um amigo que já deixou o projeto, mas é tocado com competência por mais quatro amigos, todos jornalistas, que se revezam entre roteiros, apresentações, edições, redes sociais, marketing, comercial. Enfim, fazemos tudo. Infelizmente, o projeto ainda não vingou e todos nós nos dividimos também em trabalhos e empregos em comunicação. É divertido, mas muito cansativo também.

Quais as orientações para quem pensa em empreender com projetos digitais voltados para o jornalismo?
Não sei se existe uma fórmula para empreender – o que, aliás, não é pra todo mundo. Empreendedorismo é algo complexo, trabalhoso e há pessoas que não tem perfil ou paciência para encarar as instabilidades inerentes do processo. No entanto, eu sempre acho que os jornalistas que tenham alguma boa ideia precisam trabalhar para torná-las viáveis e experimentá-las. Neste sentido, a minha recomendação é planejar bem o projeto, buscar entender qual o público consumidor daquela ideia e como ela pode se sustentar financeiramente – afinal, todos temos boletos para pagar, não é? Se possível, compartilhe seu projeto com pessoas de confiança e que estejam alinhadas com a ideia. E o principal: coloque a ideia à prova. Não vai ser fácil, mas pode dar certo.

Quais as possibilidades de monetização para o jornalista que trabalha com projetos digitais atualmente?
Desde o surgimento da internet nos anos 90, tornou-se hábito consumir o conteúdo produzido sem pagar absolutamente nada. Isso fez bastante mal aos negócios de jornalismo, já que produzir conteúdo de qualidade não é fácil, nem barato. Hoje já percebo uma mudança de paradigma e muita gente já tem topado contribuir financeiramente para manter os projetos de conteúdo que gosta, em geral por meio de crowdfunding (Catarse, Vakinha) ou financiamento recorrente (Patreon, Apoia.se, Padrim, Catarse Assinaturas). Particularmente, acho que o financiamento do conteúdo pelos próprios fãs é um modelo viável e que tem se popularizado, especialmente em nichos. Acredito que a cultura irá mudar e este pode ser um caminho para manter projetos de pé. Além disso, muitos produtores de conteúdo investem na venda de produtos da marca (canecas, camisetas etc.) e links afiliados (o produtor de conteúdo recebe porcentagem de cada venda feita através de um link único, geralmente muito utilizado por livrarias). Estes são alguns modelos de negócios básicos que podem ser estudados e colocados em práticas para projetos digitais, mas existem outros mais complexos e tradicionais, como produzir conteúdo para marcas em cima da expertise do produtor de conteúdo e também a venda de espaços publicitários, que são mais difíceis de conseguir.